quinta-feira, 9 de agosto de 2012

NÃO SE COME UMA MULHER


NÃO SE COME UMA MULHER

Fabrício Carpinejar

Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas acontecerem. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir 
o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado.

Sexo é pensar, como que não?

E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance.

Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Cada noite é um outro início. Cada noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve — e nem sempre num idioma conhecido.

Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido.

Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral.

É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto.

Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra.

Não se come uma mulher, ela é que se devora.

Crônica do meu novo livro "Ai Meu Deus, Ai Meu Jesus" (Bertrand Brasil, 256 páginas)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Complicada demais,simples assim


Sem prévio aviso. Foi assim que meu mundinho amargo e dolorido tornou-se agradável, como um chá quente de boldo depois da ressaca.
Aconteceu uma limpeza imaginária nas minhas entranhas, e repentinamente fui salva daquela sensação de ânsia tão esquisita que insistia em me visitar.
Puft! E como num milagre, um fim de semana calmo e solitário faz as ideias clarearem e (quase) tudo ficar bem, como numa novela de cenas afinadas e bem escritas.
Ufa! Já passava da hora de fazer as pazes comigo.
Vivo brigando com minha ansiedade, me degladiando com minha imaginação... Mas no fim acabo me entendendo. 
A gente briga com nossas caraminholas, mas no fundo a gente se ama. Um amor sem explicação.
Tô exausta das tentativas de me decifrar e nunca achar uma saída. Cansei das minhas neuras esdruxúlas e incoerentes. Cansei até de sonhar acordada, mesmo achando poético ser como sou. Cansei, mas não desisti. No fundo, não trocaria minha cabecinha perturabada por nenhuma sã.
Sei lá se quero você pra sempre, só por uma noite ou se quero que todo esse romance blasé se dane. Não consigo me decidir nem sobre a cor do meu vestido, então não venha me cobrar definição.
Garçom, desce mais um chá de boldo imaginário pra curar de vez minhas neuras de estimação!

Flah fazendo as pazes com as próprias loucuras.

Nós sem laço


Fui acumulando palavras aqui dentro e elas acabaram assim, embaralhadas. Falta paciência para desfazer os nós. Juntei tudo e coloquei num cantinho, embaixo do tapete.
Todos os dias minha consciência me dá um puxão de orelhas. 'Menina, quando é que você vai tirar a poeira e varrer o passado pra fora?'.
Não tenho resposta. Abaixo a cabeça, disfarço e saio de fininho.
A gente até pode jantar comida requentada, mas nunca se acostuma com novidades de ontem.
Mas não é sobre o marasmo que quero falar. Hoje não. Esses comentários são só minha imaginação desviando do assunto.
Hoje abri os olhos e a rotina já estava a postos... Banho, cabelo e maquiagem. Trânsito, trabalho e etc. Acordei um pouco mais tarde no mundo virtual. Estava com preguiça pra tweets e tudo mais. Mas foi lá, no mundinho-quase-de-faz-de-conta que me lembrei dele.
Pensei em mandar um scrap. Oscilei entre um telefonema ou um recado via twitter. A verdade é que ele não merece nada disso. Optei pelo mais óbvio quando se trata da garota TPM aqui: pensar, pensar e pensar... Nele, em mim, no faz de conta que criei e que no fim, rendeu menos páginas que as histórias da carochinha.
A gente se esbarrou por acaso mas me encantei de caso pensado. E no fim, não passou de um caso mal resolvido.
Chato. No fundo, me interessei pelo cara que fui inventando (imaginação filha da puta). Ele, mais maduro e bem menos criativo, me desvendou em dois tempos e sem me dar tempo, pulou fora.
Opa! Eu e minha falta de foco... Esse não é um texto sobre dor de cotovelo. Tsc tsc tsc.
Esse emaranhado de palavras é pra tentar desatar os nós que ficaram. Já tenho laços demais pra manter o que não convém.
Me dei conta de que pouco sei a respeito desse tal cara, mesmo que em algum momento eu pensasse saber tudo. Que vergonha da minha mania de achar... Vivo achando e no fim, não tenho certeza de nada.
Ãh? Ah! Ok, foco...
Eu espero que ele seja ao menos um pouquinho do que vi. E que as músicas e mensagens que trocamos em algum ponto virem uma verdade pra nós... Mesmo com outros pares.
De nós só ficaram os nós. Mais cedo ou mais tarde, a gente desata.


Esse texto bagunçado que fala tanto sem dizer nada é só um beijo carinhoso.
... pra ele.

[Ins]Piração


Dá desespero ver os dias escorrendo pelo ralo, os minutos escapando pelo ar e tudo que era deixando de ser.

Dá vontade de agarrar uma época pelo pescoço e pedir pra ela ficar mais um pouco.

'Calma, isso é só o tempo passando.' - Contemporiza minha consciência. - 'Nada além disso, por favor vamos manter a calma.'

Dá vontade de ficar com a gente pra sempre, mas a gente escapa de si diariamente.

A gente pisca e já não é o mesmo, sorri e muda de pensamento, chora e muda de opinião. A verdade é que a gente se abandona a todo momento e só um distanciamento interpretativo é capaz de permitir conclusões tão óbvias: ando morta de saudades de mim.



Texto dedicado a todas as mudanças da vida, inclusive as mais imperceptíveis e importantes: aquelas que se passam dentro da gente.

Ou 8 ou 80

Existem três tipos de pessoas: Os normais, que sentem, mas não sangram; os excessivos, cujo bater de asas de borboleta no jardim do vizinho lhes açoita e finalmente, os insensíveis.

O primeiro grupo, maior e mais comum, é formado pela maioria dos meus amigos, por meu irmão, meu pai, meus amigos... É constituído por pessoas que se sensibilizam diante de um roteiro dramático, que choram a morte de um ente querido, dizem eu te amo e eventualmente ficam tristes.

O segundo, dos excessivos, é onde me encontro. Não queira fazer parte dele, meu bem. Devo tê-lo herdado de minha mãe e o que posso dizer é que é feito de gente que dói. Doem as dores próprias e as alheias. Doem as injustiças, as notícias de telejornal, o divórcio da madrinha, a doença do avô. Dói além da conta e para extravasar, a gente escreve, pinta, borda, planta bananeira... E mesmo assim, dói. Dói amar e não amar, dói sorrir, dói chorar, dói até quando não está doendo porque a gente se
 sente meio morto. Mas óh, não se engane. Também não quero dizer que sejamos infelizes. Para os excessivos, a felicidade vem absurda – como vem todo o resto. O problema é que tudo é muito, todo sentir vem mal dosado, em proporções cavalares, e aí... Dói. Só quem é, sabe.

Finalmente, temos o terceiro grupo, os insensíveis. Não raramente os confundimos com os excessivos porque de tanto não sentir, eles aprendem a forjar. Forjam alma, lágrimas, zelo, prazer... Com esses sim, há de se ter cuidado.

Invejo pessoas normais, que sentem na medida. Me benzo contra pessoas insensíveis, que devoram o sentimento alheio. E excessiva, sigo doendo.

Amante não amável, mas amado.


Tenho mania de definição. Tento definir tudo, inclusive – e principalmente – o indefinível. Gosto também de classificar o inclassificável, nomear o inominável, justificar o injustificável, perdoar o imperdoável. Amar o não amável.
Em alguns momentos é divertido. Tentar achar uma palavra que descreva o amor, ou uma que traduza a paixão, outra que abarque a felicidade. Mesmo sabendo que é uma busca sem fim, ou até por isso mesmo, é gostoso brincar com letras enquanto sinto todas essas coisas sem nome.
O problema é que às vezes esqueço que a vida é o que há de mais indefinível. E que é real, e que o tempo passa, e que se eu estiver ocupada demais tentando alterar a natureza de tudo que aconteceu, perco a possibilidade de viver o que está acontecendo. E que por mais divertido que seja brincar de alterar a natureza, subverter condições, ou modificar opiniões, fatos são fatos e eles alteram os sentimentos por mais que eu tente negar.
Quantas vezes é possível perdoar o imperdoável sem gerar raiva? É possível justificar o injustificável sem ficar com aquele ranço de que no fundo não deveria ser assim? Dá pra classificar o inclassificável sem perder parte da beleza que lhe é própria justamente por não se caber em tabela alguma?
Quando penso nessas perguntas, quando as escrevo, tenho certeza que essa brincadeira já foi longe demais. Que cansei de tentar classificar, que desisto de nomear, que não quero mais justificar nem perdoar. Mas aí o amor. O amor é o que me leva a fazer tudo isso. No amor tudo é inominável e inclassificável, e nada é injustificável ou imperdoável. No amor, tudo às vezes é nada, e nada pode ser tudo, e tudo depende de algo que não tem explicação. Amar o não amável é submeter-se às sem-razões do desejo. É perceber que classificar, definir, justificar, perdoar, são todas apenas variações do que, no fundo, é o que me move: amar. Você. Amante não amável, mas amado.

Só sei falar de amor,mas e o ódio?


Eu só sei escrever sobre amor. Sou uma pessoa doce, melosa e brega. Tudo que escrevo cai nesse mesmo tema. Será que é isso mesmo? Na verdade sou muito menos doce do que gostaria, ou do que acho que deveria ser. Sou chata, intolerante, e altamente crítica. E não só amo. Eu odeio, fico irritadíssima e sei ser muito má. Só que acho isso ruim, então tento disfarçar. Por exemplo, estava agora mesmo irritada por sentir que não tenho escrito nada de novo, e ao mesmo tempo dizendo que não consigo me imaginar escrevendo outra coisa. Quando me defino assim, essa pessoa que só fala de amor, acabo me limitando. Se eu sinto raiva, se odeio, por que não falar disso também?

Então me veio a seguinte formulação: o ódio movimenta o mundo tanto quanto o amor. Dizem que a fé move montanhas, mas mesmo os religiosos são altamente influenciados pelo ódio. Todo o terrorismo atual e as guerras “santas” da história estão aí para provar. Parece loucura pensar que diferenças provoquem ódio e que um sentimento gere tanta destruição. Talvez por isso a dificuldade de falar de ódio, e minha resistência até mesmo em pensar nisso. Mas o fato é que todos nós odiamos. E como há infinitas formas de amar, também há um sem número de maneiras de odiar. Acho que aí reside a principal questão: o vilão não é o ódio, é o que fazemos dele. Por exemplo, eu estava aqui agora muito irritada. Com raiva, odiando um monte de coisas, pessoas, e até a mim mesma. E daí eu comecei a escrever. E, enquanto escrevia, as palavras correndo, comecei a pensar em coisas novas, ficar curiosa comigo mesma, com as minhas acepções acerca do ódio e de outros sentimentos ruins. Então tão repentinamente como me tomou, o ódio me deixou. Claro que nem sempre é assim, e não é possível fazer disso uma fórmula: quando odiar, escreva. O que aconteceu agora comigo foi apenas uma das possibilidades de lidar com o ódio. Mas basta uma para mostrar que não é preciso temer o ódio, a raiva ou qualquer sentimento. Ocorre-me agora que o medo é inclusive um fator primordial do ódio. Quantos odeiam o diferente por terem medo dele? Do que eu tenho medo quando evito falar de sentimentos e sensações que julgo errados? Temo me desconhecer, temo que ao trabalhar com significantes novos eu me desencontre de quem acho que sou. Só que agora, depois de escrever essas linhas que ainda nem sei ao certo que efeito terão em mim, tenho a certeza de que foi bom me desencontrar. Porque só assim me encontrei nova. E saí do castelo de conto de fadas que eu mesma criara, mas que mais do que me proteger, me prendia.